segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Repartição de receitas: breve ensaio sobre como nosso dinheiro é bem gasto

Em Brasília

Sala ampla, mais de 80m², o que era para ser uma reunião parece mais uma roda de bar, apesar de alguns de gravata. Amigos de longa data. O ofício circular dizia duas da tarde, mas vamos esperar mais um pouco que sempre atrasa alguém. Duas e meia e, agora sim, parece que vai começar.

Numa cidade brasileira qualquer

Fila no posto de saúde, só tem um médico hoje. Dizem que vai chegar às duas, mas tinha uma cirurgia noutra cidade. Mais de 100km daqui. Talvez nem venha. No fim da tarde dá expediente numa outra cidade, mais longe ainda.

Volta para Brasília

Bom senhores, boa tarde, diz um engomadinho. Desculpem o atraso, mas tive que pegar a minha esposa no cabeleireiro (como se fosse uma boa desculpa). Recebi a informação de Sua Excelência de que teremos em breve R$ 50 milhões para investir na saúde. Precisamos definir os projetos que serão beneficiados.

Cai de novo naquela cidade

Grávida com pressão alta na fila, gritando. Garotinho com o dedo quebrado. As duas enfermeiras se debatem para tentar atender a todos. Olhando de longe parece mais aquelas tendas de refugiados em guerras. A enfermeira mais alta pergunta para a de cabelos cacheados: temos remédio pra pressão alta? A de cabelos cacheados vasculha desesperada as gavetas e o olhar atesta que não, não temos.

Volta pra Brasília

Outro engravatado levanta a mão. Doutor, diz ele, na minha última viagem à Suécia, pela qual recebi bolsa integral, realizei uma pesquisa de um ano que concluiu que houve grande ganho à saúde pública com a aquisição de pelo menos uma ambulância equipada com aparelhos de UTI para cada grupo de 30 mil habitantes. 

Qual foi a sua base de dados?, pergunta um magrinho, de óculos, escondido num canto da mesa.

Er... bem, na verdade, é como eles fazem lá. Pesquisei nos folhetos do Ministério da Saúde sueco. E eu posso garantir, funciona muito bem lá.

Desaba novamente na cidade

Enfermeira liga para o 190. Vocês conseguem levar uma grávida até o hospital mais próximo?

Positivo, mas vai demorar um pouco. A única viatura está em atendimento na aldeia indígena, homicídio. Vai levar umas duas horas. Bom seria ter uma ambulância, né?

A enfermeira confirma: é sim, mas quem iria dirigir? Não temos gasolina nem pra trazer remédio da capital. Mertiolate acabou há dois meses e já avisaram que pra este ano não tem mais verba.

Sobe...

Perfeita sua ideia! Aqueles que discordam permaneçam como estão...

Um longo segundo transcorre. A bonitona olhando o celular dá uma risadinha de um e-mail que recebeu. O mais careca deles procura o açúcar para o café. A televisão ligada (sim, a televisão está ligada no meio da reunião!!) anuncia a vingança da mocinha na novela das nove. O único que presta atenção é o magrinho, novo ainda no serviço público federal, que, sozinho em meio àqueles doze inúteis, prefere ficar calado. Não vai ser de novo o único a se insurgir.

Aprovado! Vamos levar a ideia a Sua Excelência.

Desce!

Seis mesese depois, chega em Capão do Mato Alto do Norte uma ambulância. Nova, reluzente. O secretário e o governador vêm inaugurar. Uma multidão se aglomera na praça, não tanto pela novidade, mas pela distribuição de leite que foi marcada para o mesmo dia. O show da dupla sertaneja local custou quase tanto quanto a ambulância. A TV está lá, entrevistando as autoridades. Certamente será de imensa valia para nossa região um veículo tão moderno e bem equipado, diz olhando para a lente da câmera, com um sorriso excessivamente branco, o deputado.